quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sonho infanticida

Num moinho surreal, eu fantasiava
Eloquentes sonhos de mil intentos,
Entre fracassos, o eu-herói estava
Nas batalhas intensas do pensamento.

Perdi-me então, pelo adulto caminho
Onde só existem exércitos vencidos,
Sem rumo e vizinho, fiquei sozinho
E longe do meu personagem preferido.

Por fim, eu fui expulso daquela história
Das raras páginas imaginadas de criança,
Cresci, foi-se o sonho, a luta e a glória
Não fui sequer um Sancho Pança.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pequeno Mapa do Pensamento - Parte II

Inúteis percepções e experiências
Uma pedra que não percebe e sente,
Ou um animal irracional doente
Num sentido isolado da existência.

Cativo em espaços de conclusão
Associando fatos não precedidos,
Do pensar a linha frágil da reflexão
Ocasional significado subtraído.

Impassível diante desta amplitude
Da arquitetura dura do pensamento,
Justifico a todo possível momento
Os equívocos propositais das atitudes.

E exilado dos tormentos do mesmo
Mundo impessoal e muito conjecturado,
Reduz-se em partes e também a esmo
A filosofia fria dos dias vãos e inacabados.

domingo, 13 de novembro de 2011

Pequeno mapa do pensamento

É um mosaico de perspectivas
As sombras das angustias indivisíveis,
Seccionadas por vozes intuitivas
Em linguagens incompreensíveis.

Assim percebo a perda do contato
Dos dúbios valores convencionais,
Represo o conflito e logo trato
De recompor o pensamento fugaz.

No desapego reflexivo delibero
Os súbitos tons da existência,
Por osmoses ou catarses, reitero
A dissolução da vã consciência.

E toda esta evasiva contemplação
Falsa testemunha da palavra escrita,
Entre o criador e a criatura, a devoção
Subjaz a verdade nunca dita.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Jardim das Indecências

Vetores involuntários cerebrais
Panes, curtos-circuitos, sensações,
Como se fossem poeiras siderais
Cobrindo nossas dúbias razões.

Sem direção e sem controle do fim
Subjugamos nosso amor fracassado,
Na difusa dispersão do inútil sim
Dos anti-humanos sentidos celerados.

Temos a multiplicidade de variáveis
E a experiência da ditatorial estética,
Não havendo nas horas insuportáveis
A surreal consciência da cruel ética.

E no teu corpo, leve, latente e corrosivo
Desejos, lavas vulcânicas e demências,
Que florescem em meu olhar apreensivo
Rosas nos teus jardins de indecências.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Antes de um sonho

Ilustram a existência, interrogações
Depuração límpida, sóbria que aflora,
Predominante de vãs conspirações
Nos irreais universos do exato agora.

Modelo de teoria cega e ultrapassada
Além de verdade, todos nós, nos desatamos,
Do pensamento inútil, mente perturbada
Historiadores equivocados, imaginamos?

Cultivados em estufas do velado cinismo
O alimento das nossas mentiras necessárias,
Em conceituais aparências do iluminismo
Impostas por regras absurdas e arbitrárias.

E a partir ponto central, e nada mais
Dos neurastênicos discursos dos sentidos,
Apenas servem para nos jogar para trás
E despersonalizar os nossos ouvidos.

Ilustram a existência, o ego e a filosofia
Entre fatores congênitos e recalcitrantes,
Diante da dramática e constante agonia
E cientes que nada, nada será como antes.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Depois de um sonho

Primitivamente a minha intenção
Modelar a estética do inconformismo,
Mas na hora absurda, a absolvição
Da opressiva imagística reiteração.

Causou-me obliqua estranheza
Este amor de construção formal,
Inspirado na litografia da incerteza
Em difusas imagens do moral.

E no impecável abismo, mais um passo
Ato final simultâneo da consciência,
Nesta metafísica ocultista, nada faço
Senão embebedar-me da vã existência.

Após o jantar, restaram os seus ossos
Pelos campos vazios de muitas camas,
Já habitei em muitos desses destroços
Inúteis reinados, arruinados e em chamas.

Primitivamente a minha intenção
Roubar-lhe o admirável magnetismo
Que se esvai teu corpo nu, clarão!
E colide com meu egocentrismo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Redenção

(À amiga Paola Martins)

Após séculos de penúria e dor
Enfim, pelos céus fomos perdoados,
E em novos corpos carnais confiados
Para traduzirmos tudo em sublime amor.

Refeitos pela divina luz, eis a caminhada
Em busca de um oásis raro e tranqüilo,
Sem lembrarmos que fomos apenas aquilo
Pelas trevosas noites ocas e assombradas.

E chegando exaustos ao celestial destino
Onde nossos amigos, reencontraremos,
Teremos a clara certeza que vencemos
Quando os anjos azuis tocarem o sino.

Por fim, voltaremos sãos de onde viemos
Reencarnados para mais uma dura missão
Não sei se juntos, amantes ou irmãos
Mas sim poetas de certo, renasceremos.

O Oboé

O Oboé chora sua melancolia
E um moribundo aos pés do outeiro,
Observado por um corvo traiçoeiro
Repousando sobre o símbolo da heresia.

As portas escuras fechadas, o sino calado
Lá dentro a velha dona já adormece,
Antes reza, promete e depois esquece
Do legado deixado pelo crucificado.

Somente as velas, testemunhas insistentes
Damas brancas, chamas contra o vento,
Poucas iluminam o triste convento
Mas sem alcançarem as almas penitentes.

E a noite,a hora muda, a madrugada
Quando a cidade calada dorme ainda,
Jaz meu corpo inútil, a vida que finda
Entre sonhos, poesias e mais nada.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cenóbio das Trevas (Parte II)

(A amiga Paola Martins)

Ofereça minha alma impura, também
Aos senhores desta lodosa escuridão,
Pois em vida, nunca fui cúmplice do bem
Só esses tempos negros nos resgatarão.

E embarcaremos na carruagem infernal
Rumo ao sofrimento e sem itinerário,
Pois nesta hora inexorável e fatal
Teremos apenas o nosso destino arbitrário.

E caminharemos amiga, juntos tateando
Mendigando por pântanos trevosos,
Um pouco da longínqua luz, suplicando
Um fardo mais leve dos nossos remorsos.

E diante deste tétrico teatro, no último ato
Brotarão nossos cadáveres naquele jardim,
Onde reinam absolutos abutres e ratos
Até que nossos pecados sejam perdoados, enfim.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Uma outra canção

Trêmula e enlouquecida
A tua noite não sucedeu
A paixão feroz e corrosiva
Deste teu desejo ateu.

Abrirão nuas as portas
Da insólita e incerta aurora,
Paisagem, cinzas mortas
A solidão nos espera lá fora.

E a cada passo vacilante
Talvez ainda te encontre com vida,
Mesmo sem saber se é relevante
Viver está existência falida.

Então como identificarei você?
Maquiada de tanta ambigüidade,
Se não consigo sequer reconhecer
A minha própria identidade.

Restará enfim, a finada magia
De te amar mesmo sem motivo
E conviver com tamanha agonia
Ao saber que agora apenas vivo.

Trêmula e enlouquecida
A tua noite não amanheceu,
Abraçarei tua sombra viva
E o sonho que já morreu.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Resignação

Porque andas apreensiva?
Se tão breve é a nossa vida.
Vem os ventos do poente
E sopro imperceptível,
A deslocar de nível
O que nos era incoerente.

Giram-se os mundos calados
Ouvindo os poetas ardentes,
O escárnio dos descrentes
E o pranto dos enlutados.

O ritmo da vida permanece.
Mas nós não somos os mesmo,
O tempo as malhas da mudança tece
Nossas memórias são jardins tão ermos.

Porque andas apreensiva
Se o amanhã não mostra o seu rosto?
Não sabes a caso a devida,
Vão-se os barcos do sonho ao sol posto?

E que a lua retome e abraça
Mesmo o que tomba ao que passa,
Haverá de ser sempre querida
Mesmo por mim com essa asa partida
Que a vontade de Deus desenlaça.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Amanheceu.

(Para aquela que nunca será minha.)

E você, não amanheceu.
Saltou louca para o infinito,
Calando o meu surdo grito
Depois, nada aconteceu.

E você não renascerá
Sem alma e sem guardiões?
Só tua mão cega ostentará
Minha cabeça as multidões.

Mutirões de famintos intentos
Ilusões seculares e incertezas,
Que a ferrugem desses tempos
Deterá a hora suja em sutilezas.

Genitora de mágoas, rugas no rosto
Trôpegos desejos condensados,
A busca do sol sempre posto
Em horizontes inalcançados.

E a vã alvorada? Condenada e presa
Em tua cama, o sexo vil, mil razões
Ansiedades, a real aspereza
Dos desgraçados corações.

Mas nesta ausência de luz
Em teu olhar de bicho e gente
Omitirá a ira que traduz
Nossas relações inconseqüentes.

E tuas vestes, não mais
Vestirá teu corpo nu, vela no breu
Clareando meus infindos umbrais
Finalmente, infelizmente amanheceu.

sábado, 20 de agosto de 2011

Adagio Lamentoso

O que me falta de esperança
Sobra-me por ti, grande amor
Equaciona querida
E há de mensurar a minha dor.

Julga-te acaso esquecida?
Tal não pode se dar,
Pois mais vale um vento já ido
Criar outra onda no mar.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Definição

Definir tudo que existe
Transcendendo o individual
Buscando a resposta que omite
O "ter" fútil e o "ser" essencial.

Tentaremos um novo exercício
De refletir, contemplar e amar?
Trabalhando neste duro ofício
Toda a existência a resgatar.

Definir é limitar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Geminiana

Sou mesma assim, antagônica
O meu signo rege a dualidade,
Em pleno sonho sou a realidade
Uma personagem tragicômica.

Quero o novo apenas um dia
Intensamente te esqueço e te amo,
Antevejo o meu próprio desengano
E as pessoas dizem: Quem diria !

E com tantas possibilidades
Em uma só visto mil personalidades,
Sei que o tempo tudo engana.

De mim ficará a complexa história
Pois eu sou o arco, a flecha e a trajetória,
Sou mesma assim, geminiana.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Relatividade

Relatividades que compõem o espaço
Discrepâncias múltiplas do existir e ser,
Tendo cada corpo o seu próprio compasso
E o descompasso do outro para entender.

Se para uns é apenas mais um pouco
E para outros tudo é demais, até infinito...
Em parâmetros entre o normal e o louco
Negando todo o questionamento aflito.

E se toda a ótica da existência fosse relativa
Tudo seria composto de absolutamente nada,
Sequer haveria a alma humana intuitiva
E a descida poderia ser vista como escalada.

Ciências, religiões malditas e a vã filosofia
Tudo nestes confusos e discutíveis contextos,
Se para uns são muletas ou meio de vida
Para outros são meros irreais pretextos.

Relatividades que compõem o espaço
Discrepâncias múltiplas do existir e ser,
Muito além do extremo humano cansaço
Na existência que pensamos viver.

Contra a Corrente

Romper com os paradígmas autoritários
Criando um novo pensamento existencialista,
Para que os modelos medíocres e imaginários
Fiquem restritos apenas aos psicanalistas.

Entender que a loucura é a mais pura razão
E vítima desta roda-viva que tem nos esmagado,
Exigindo-nos a todo instante da cruel competição
Resultados convincentes e por ela manipulados.

Ter a consciência da nossa efêmera passagem
Por esta vida que somos meros coadjuvantes
E quem sabe tentar inserir nesta paisagem ?
Nossa figura na breve posteridade entediante.

Romper com os paradígmas autoritários
Criando um novo pensamento existencialista,
Conquistanto cada canto do tempo perdulário
Mesmo que toda retrógada corrente resista.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Miséria

Voaram meus pensamentos ousados
Com as asas da noite vã e estérea
Pelos vales psíquicos famigerados
Desprendidos da humana matéria.

Inda que mesmo ora involuntários
Sucumbem numa compulsiva febre
Em cada canto dos fatais imaginários
E com todo o coletivo que se quebre.

E terão eles a anunciada liberdade ?
Como o animal do primitivo instinto
Entre as lutas da ilusão e da verdade
E nas ações que represento e sinto.

Voaram meus pensamentos cansados
Secou todo o sangue na frágil artéria
Vamos morrer de certo enganados
E sepultados em nossa própria miséria.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Lápide. ( Rua L, quada 20 , Campa 18)

Guardião dos sentidos opostos
Todos os elos serão quebrados,
Dos dias iguais sobrepostos
Primórdios medievais passados.

Habitante da mal fadada era
Nunca poderá sequer conter
A volúpia de alguém que espera
Os sonhos que inda possa viver.

Libertar as almas dementes
Presas em paredes horizontais
Viagiadas por negras serpentes
Viajantes de periféricos umbrais.

Guardião dos sentidos opostos
Todos os elos serão quebrados
Declamarei abraçado aos mortos
Meus poemas jamais declamados.

Canção Confusa

Sou o acontecimento adiado
Em tantos enigmas vazios
A face no espelho entediado
Por detrás de espíritos vazios.

Sinto a dor do choque real
E do inconformismo moderno
Flores bóiam em águas de sal
Pelas ondas do amargo eterno.

Ouço o meu poema imaginário
Sendo declamado pelos mortos
Figurantes de um velho cenário
Em atos, falas e roteiros remotos.

Ah ! cidade minha dos ausentes
Das letras que tecem finas malhas
Em cada fio do meu inconsciente
E nos frios cortes das navalhas.

E fica o poeta e o seu ócio dilena
Delirando em sua pseudo-arte
Sem saber que é extrema
A ingênua iria que em teu peito arde.

Morre o homem , o pífio anti-herói
Coadjuvante desta confusa história
Terás apenas a ferrugem que corrói
As lebranças de sua vã trajetória.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Letras Elétricas

Vejam a casa e a rua
Exílios destes cantos
Não sou eu e nem sou tua
A mentira dos teus contos.

O prazer fez-se sagrado
Talvez agora ignorando
Em espectro malogrado
Todo amor agonizando.

E em décadas de espanto
Do paraíso e do poder
Entoando o mesmo canto
Sem querer te conhecer.

Restou conceitos apenas básicos
Em paradoxos pós-humanos
Canibalismo sempre ávidos
No equívoco de cada abandono.

Vejam a casa e a rua
Em histórias histéricas
Sou a frase nua e crua
Escrita em Letras Elétricas.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Inalcançável Amanhecer

Desigualdades incompatíveis
Obviedades longas por viver
Em todas as partes invisíveis
Um novo corpo apodrecer.

Com tantas palavras não ditas
E amores jamais finalizados
Apesar das promessas malditas
Dos velhos Deuses decapitados.

Ignoremos então a nossa morte
Certeza única e alentadora
Muito mais que azar ou sorte
A vida numa trilha desoladora.

Por fim restarão todos os pecados
Daqueles sem o menor perdão
Cometeremos os mais variados
Sem tempo para uma só reflexão.

Desigualdades incompatíveis
Obviedades longas por viver
Muito além da racionalidade
E do inalcançável amanhecer.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Desencontro

Translúcido sentimento
Nem assim poderei compor
O imaginado acontecimento
Quando em penso neste horror.

Paro e não me entendo
Porque ainda permaneço aqui ?
Pois sequer os braços estendo
Deixando a vida ruir.

Anônimo na estação do Tempo
Nem por mim poderei esperar
Sem tristeza ou contentamento
De partir ou de chegar.

E ao longe vem o inútil amanhã
Repleto de tantos conflitos
Eu abraçado com a esperança vã
Quem ouvirá meus gritos ?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Adagio n° 19

( Ao Arka Hare )
Descansar as palavras na boca
Regurgitando os sonhos futuros,
Em quadros , miragem tão louca
Expostos em penhascos obscuros.

Evocar a luz em plena escuridão
Pisando nos degraus da insanidade,
Chamar os inimigos em mutirão
A declamar poesias pela cidade.

Ao final , habitar em ti , cemitério ...
Para decompor o sombrio passado
E sepultar vivo esse frágil mistério
Em covas de perdão e pecado.

Descansar as palavras na boca
Regurgitanto os sonhos futuros,
Concluir que a vida é tão pouca
Pichando os sonhos nos muros.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Direções

Veja por onde andava
Rastro de pensamento ,
De tudo , nada bastava
O existir do momento.

Do tempo , eu aliciava
As horas tão inocentes
E logo a noite acabava
Em espelhos dementes.

E aqui , aonde cheguei !
Dentro de mim calabouço,
Jamais saberei o que sei
Sequer num leve esboço.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Cigana

( à amiga Luciana Pedreira)

Na palma da mão
Um sinal.

O que ficou daquela esperança ?
E das certezas inimigas de criança,
As ingênuas intrigas
Algo sobrenatural.

Ficou suspensa na poeira ?
Num pensamento qualquer exato
Retratado em óleo abstrato
Ou como queira.
Agora é surreal.

E as vagas previsões ?
Os conturbados sentidos ,
Anéis , vestidos rodados e cordões
Em quais corações perdidos ?
Alheios ao bem e o mal.

Talvez no etéreo movimento
Na respiração mais profunda
Onde todo sangue inunda
Como um corte visceral.

E nada entenderei
Um dia ...
Do prazer ao sofrimento.
Na palma da mão
Um sinal.

sábado, 9 de agosto de 2008

Nu...Ânsia.

Uma mulher................................................( o quarto )
Real o sonho
Dia qualquer
Não suponho.

A nossa idade..............................................( a escada )
Cronológico engano.
Abandono , identidade
Calada-cilada , perda e dano.

Nu...Ânsia - declina......................................( a queda )
O nu imaginado.
Eu-esquina
Ignorado.

Noite fora...................................................( o fim )
Não há
Hora
H.

Neo-Pós ( ao Dr. Paulo Fontes )

Neo...meu pensamento
Em débeis articulações.
Divã. Exato o momento
As humanas limitações.

Pós...um outro argumento
Tolas , todas elucubrações,
Sintomático esquecimento
Sombras e assombrações.

Então ? Eis aqui o Tempo !
Revelando nossas intenções
Restos-memórias-testamento,
Rostos e ratos. Alucinações.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Canção do Amanhã

Exilado no tempo e na distancia
Sobrevivendo em lapsos improvisos
Sem uma linha reta ou constância
E perdido pelos caminhos indecisos.

Enfrentar a morte certa , corajoso
Entender o efêmero de tudo sempre
Deleitar-me do momento em profuso gozo
Impedindo que a mediocridade adentre.

Restabelecer então os descuidados dias
E a essência perdida da lasciva alvorada
Sem que as horas raras fiquem vazias
E nem a humana loucura questionada.

E por fim , desfilar com a fina mortalha
Pelos prometidos espaços umbrais
Abraçado com a derrota desta insana batalha
Até que tudo silencie e fique em paz.

Da mão e do escrever-dor

Dor. O fim amanheceu...
Espalha o pensamento,
Não sobra o que viveu.
Espelho o momento...

Mãos: somente os dedos.
Do anelar , foi-se o anel:
Restaram apenas medos,
Sangue, foice, féu...

Solidão. À companhia,
Livros sem nossa história.
Mas quem sabe um novo dia
Ilumine essa retórica,

E me traga um novo final ?

André Bianc & Priscila Haydée

sábado, 24 de maio de 2008

Senhora

Quero Senhora os vagos sonhos
Mergulhados em rubros licores
Surgirei assim dos umbrais medonhos
Nada nas mãos , apenas tremores.

Tremores qual pêndulo do indeciso tempo
Dias estes , pálidos , apenas escombros
Bateu-me no peito o fracassado intento
De chorar em seus delicados ombros.

E nas profundezas desses mares
Naufrago minha pífia fantasia
Navegando por desertos de densos ares
Sou o servo desta escrava apatia.

Quero Senhora os sonhos vagos
Em taças quebradas os sorverei
Encharcados da sua magia e da ira dos magos
Alucinado , desemparado morrerei.

Barco de Pedra

Deixo aqui o meu Barco de Pedra
Oceano ancorado na solidão
Onda trágica em mim quebra
Bússola sem norte pelo chão.

O farol naufragado sinaliza
Fachos de espera e aflição
A vela gasta apenas simboliza
O cais desprendido do coração.

E em terra firme estará o meu filho ?
Quem sabe ele falará com Deus
Lanternas jazem sem brilho
Último aceno , mares de adeus.

Deixo aqui o meu Barco de Pedra
Oceano ancorado na solidão
E segue a vida , tudo se quebra
Cartas confusas de navegação.

Canção do fim

Paro. Aqui é o fim do mundo
Pedras, palavras e tristes versos
Atiro-me no mais escuro profundo
Dragões ferozes , algozes universos.

Persigo meus dias exaustos e finados
Anjos tolos , diabos e mortais distraídos
Na memória ilusória , carmas confinados
Calendários antigos , números caídos.

Sigo por trevas e lírios, eis o caminho
Em trense , suor , sangue e torpor
Ao longe o monge , cajado e o velhinho
Ovelhas perdidas , perdido amor.

Definho. Antes corpo forte e valente
Que a ferrugem do tempo mata agora
Áura , alma ,vibração inconciente
Meus Deus ! chegou a minha hora.

Paro. Aqui é o fim do mundo.

Dona Cecília

(à Cecília Meireles)

Maravilhoso o Mar Absoluto
Sem palavras , Flor de Poemas
Isto ou Aquilo , apenas escuto
Tuas liguagens fortes e serenas.

Declamarei o Poema Natural
E o Romanceiro da Inconfidência
Cada livro seu é cortante e visceral
Expondo sua hábil eloquência.

Senhora Dona , com sua licença
Desculpe-me pelo atrevimento
Ler sua obra , seria entender a crença
Do humano e mortal movimento ?

E guardarei seus eternos versos
Como alguém numa santa vigília
Poemas seus aqui tão imersos
E decisivos para mim Dona Cecília.

Estrelas


Refletem sobre mim
Luzes tristes de estrelas
Melancolia , janelas sem fim
Como poderei descrevê-las ?

Será no mais tênue limite
Onde habita a dor que vede ?
Ou no desalento que omite
Estas fontes azuladas de sede ?

Amanhã , apenas o pensamento
Calado em grota profunda
Em seus labirintos de sentimento
Que em ti tudo inunda.

Depois de cerrados , além vida
Água marinha em fotografia
Que levará eternamente de vencida
O tempo que a tudo desafia.

Refletem sobre mim
Luzes tristes de estrelas
Deixo-te aqui enfim
Para as tristezas não vê-las.

Voar...Voar.

O vôo cego destes sonhos
Enfermo lapso , insanidade ?
Bateu-me no peito a saudade
Daqueles amores enfadonhos.

Então, restou-me revolver
O passado , lonjuras abismais
Aquém das portas celestiais
Um pecado mortal à cometer.

O fato é , que o real existe
Sem a menor santa piedade
E assim o dia finda-se triste
No espelho : incredulidade.

O vôo cego destes sonhos
O poeta , um astro vagabundo
Pai de poemas tão bisonhos
E marginal do concreto mundo.

Portugal , Portugal...

Este será o novo descobrimento
Ousarei despi-la de toda poeira
Do desejo de um chamamento
Tua vida na cidade estrangeira.

Faremos sim , a viagem inversa
Talvez do ponto final , destino ?
Revolvendo uma paixão tão imersa
Ao dobrar a sina de um certo sino.

E as saudades , ruas Lisboetas
Ficarão encharcadas nos panos
Jardins , pai , mãe e violetas
Irmãos , meus passos ...vamos.

Imposição


Caçadora da manhãs
Aos céus levanta a matutina
Envolta em sonhos e lãs
Despertai para tua arbitrária sina.

Nestas sutilezas de adeus ...
Onde calado ficou o meu olhar
Refletindo dilemas seus
Em espelhos da noite à contestar.

Sobreviver à vida , incerto destino
Com ares de pura clemência
Viver pergunto: Seria um desatino
Ou um instinto inútil da existência ?

E o que mais poderei te dizer
Se não tenho o que mais preciso
Vislumbrar sem jamais poder viver
Seus ditos infernos e paraísos.

Caçadora das manhãs
Aos céus levanta a matutina
Versos , inversos , palavras vãs
É o que te imponho menina.

domingo, 23 de março de 2008

Pretensão

Tua poesia parece
Pesar sobre mim
Ausente e presente
Princípio do fim.

Ausente e presente
Amanhece enfim
Que pena ela esquece
De versar sobre mim.

sábado, 22 de março de 2008

Conflito

Agora nada adianta dizer
Tua voz me cortará como faca
Eu que não tenho nada mais à fazer
Já vivi o bastante p'ra nada.

Você tão saudosa do futuro
Saudoso eu , vidas passadas
Eu aqui recluso e obscuro
Para suas respostas caladas.

E o abismo que nos separa
Fosse ele ideológico ou não
Esta loucura compartilhada
Retalhando nossa inútil razão.

Agora nada adianta dizer
Tua voz trêmula e embargada
Eis a questão : Ser ou não ser
Eu sei que nunca fui nada.

Pequena Serenata

Empresta-me tua esperança
Em cada tênue alvorada
E te deixarei como herança
Minha lembrança apagada.

Traga-me teus olhos serenos
Farol das tardes de outono
E nunca mais nos sentiremos
Nestes barcos do abandono.

Dei-me apenas uma noite esparsa
E sentirás o gosto indeciso
Desta vida que ainda passa
E te direi: Nada mais preciso.

Empresta-me tua esperança
Em cada tênue alvorada
Teu nome oculto na aliança
E de minha mão arrancada.

Crepúsculo ( A Terceira Estrela )


Tuas estrelas, crepúsculo indeciso
Em horizontes de chumbo pesado
Vivo sob o jugo deste céu impreciso
E do perdão de mais um dia acabado.

Uma outra viagem em você eu busco
Notícias de esperança em carta celeste
Dispõe de ti azul claro e verde musgo
Minha vida que talvez ainda preste.

Nesta rota de luz , minha orientação
Afugento meus pesadelos e vultos
Sem nenhuma coerência ou devoção
Pelos desejos inconfessáveis e ocultos.

Então , como findarei esta história ?
Se pelos ares existe uma forte essência
Impregnando os espelhos da turva memória
Por toda minha clara e efêmera existência.

Tuas estrelas , crepúsculo indeciso
Em horizontes de chumbo pesado
Via Láctea , jardins de paraíso
Tua maçã e meu inevitável pecado.

Depois do Fim ( A segunda Estrela )


Haverá talvez um outro universo
Onde somente tuas estrelas habitarão
Cadente olhar aqui tão imerso
Nos infinitos perdidos na mansidão.

Na terra permanecerá o denso retrato
Entre poeira , poesias e nada mais
Dividindo o espaço com este ar de recato
Em molduras escuras e celestiais.

E ventos de agosto e diáfanas cortinas
Acariciarão o seu breve rosto
Descerrando de suas retinas
Saudade , melancolia e desgosto.

Haverá talvez um outro universo
Onde somente tuas estrelas habitarão
Representarás o tempo , personagem perverso
Em palcos remotos de solidão.

Última Morada

Portas e janelas arrancadas
Memórias em ruínas estão
Livros , saudades empoeiradas
Minha vida saiu e bateu o portão.

E subirei sonâmbulo a escada
Cada degrau um acontecimento
Mesa de feltro , carta marcada ?
Corredor repleto de esquecimento.

As paredes sustentam os vultos
Quadros , mortos antepassados
Olhares que me seguem ocultos
Meus remorsos tão assombrados.

É o fim , me jogarei da sacada
Numa última e inútil reflexão
Serei eu a estátua quebrada
Pedaços de mim pelo chão.

Quinta Estação ( A ùltima )

Criar uma outra atmosfera
Reverter a inevitável mutação
O Tempo , guardião da espera
De uma Quinta e última Estação.

Acatar o tudo , exagero do nada
Princípio da desventura humana
Minha existência amanhã apagada
Apesar da luz que em mim derrama.

Ah ! inóspitos caminhos
Desertos absolutos da alma
Esmagam-me como frágeis ninhos
E depois me exibem na fria palma.

E como dominar tamanha loucura ?
Atos inimigos da mais pura intenção
Equilibro-me nesta falsa lisura
Nas linhas incertas da dúbia razão.

Criar uma outra atmosfera
Reverter a inevitável mutação
Do Tempo , restou-me a espera
E quimeras de solidão.

Descompasso

Equilibrado neste descompasso
Fio da navalha , desejos carnais
Disfarçado nesta imagem que faço
Vivo assim como os homens banais.

Afronto o meu "eu" desconhecido
Em escalada desvalida e paradoxal
Retornando sempre como um vencido
E convencido que sou apenas mortal.

E minhas mãos de tanto amor
O coração a beira do penhasco
Sem nenhum remorso ou rancor
Serei o salvador e seu carrasco.

Equilibrado neste descompasso
Fio da navalha , desejos carnais
Buscarei no tempo e no espaço
Meus caminhos existenciais.

Espera

Não há nada , apenas um dia
E meus livros neles escritos
Palavras , enredos e poesia
Tantos sentimentos proscritos.

E seguem as horas , a sala vazia
Sonhos raros e contritos
Na espada o sangue esvaía
Personagens , pobres malditos.

Deixem aqui o sombrio cenário
Armado em minha memória
E o exato verso arbitrário
Deste poeta de vida ilusória.

Não há nada , apenas um dia
Nos livros assim será , talvez ?
Ficarei nesta aparente calmaria
Até que alguém me conte: Era uma vez.

Abismos ( A Primeira Estrela )


Abismos serenos e pintados
Em telas e esferas do olhar
Imagens , sonhos decapitados
Matizes infelizes de mar.

Mergulharei em ti , eu te juro
Astros azuis de primeira grandeza
Introspectivos olhos seus que mensuro
A fusão do belo , singelo e tristeza.

Devaneios , anseios e as vagas ondas
Caravelas ineptas incendiadas
Tuas estrelas , meu colar de contas
À luzir por noites inventadas.

E assim , vão-se os debilitados dias
Terminais pacientes do sumário tempo
Dilacerando corpos , almas e fantasias
Sem piedade e nenhum consentimento.

Abismos serenos e pintados
Em telas e esferas do olhar
Trazem o enígma de um mundo velado
Quem dera eu pudera decifrar.