sábado, 9 de dezembro de 2017

Inconclusivo


Invejo a minha ignorância
Dizer saber é ostentação?
Pensar seria uma ganância
E entender é pretensão?

Não sei, é um bom começo
Mas padeço nessa reflexão:
Se mais degraus eu desço
Mais rasa fica a cognição.

Refletir é ser um erudito?
Conjecturar tudo que foi dito,
Um desfile esnobe e em vão.

Desisto, eu saio e abstraio
Esse meu pensamento vário
Sem chegar a uma conclusão.


(André Bianc)

quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Lição de casa


O que eu desaprendi
Foi o que nunca soube,
Mas confesso que vivi
O que jamais me coube.

Na vida sou um intruso
Nesta festa que estou,
E entender é ser confuso
Ao saber que nada sou.

E nessa vã introspecção
Sem nenhuma convicção
Nada tenho a pronunciar.

Pelos cantos vivo calado
Sobriamente embriagado
Num catastrófico pensar.

(André Bianc)

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

Diva

Puxo o cobertor
Nascem dois sóis,
Auréolas a expor
Vívidos arrebóis.

E mais um pouco
Relevos incidentais,
A negra teia voraz
Faz-me um louco.

A imagem escultural
Cristaliza o ato carnal
Na etérea sensação.

A lembrança furtiva
Memórias de uma Diva
Poeiras no coração.


(André Bianc)

Sombras Poéticas

Eu sou o anjo oculto que empreita
Com a missão maldita da foice invisível,
O alvo caído da trajetória tangível
Das paixões nuas que a hora deleita.

Eu sou a sombra da capa preta, sim
Dos sombrios vales úmidos suicidas,
Aquele cujas maldades foram paridas
E despejadas todas no seu triste fim...

E nesse pêsame refletem ardentes
Meus olhos de esfinges dementes
Um delírio no exato ocaso infernal.

E pode esperar minha visita um dia
Pegar-te-ei na curva de uma noite fria
Logo após o seu poético funeral.


(André Bianc)

Exéquias

Vinde a mim todos que me odeiam
Velam-me a imagem de um anticristo,
Os falsos e glutões todos aqui ceiam
Do meu resto inexorável e proscrito.

Sirva o meu gélido sangue em taças
Nutrem-se dos primitivos instintos,
Nas bocas os guardanapos com traças
Juntos aos porcos imundos e famintos.

Ao fim do fastio banquete só a carcaça
Dessa festa regada de orgias e desgraça
Minha vida poética foi-se por inteira.

E ao som de longos e nojentos arrotos
Foram-se os meus parcos traços rotos
Mas ainda sorri a minha cínica caveira.


(André Bianc)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Para você, Beatriz.


Languida alma anímica
O teu beijo na vidraça,
Uma cena, uma mímica
Acena, o choro embaça.

Teu coração esvoaçado
Num translúcido desejo,
A utopia vaga que prevejo
Nosso amor desenganado.

E teus passos tão confusos
Sobre os meus intrusos
Duas sombras amarguradas.

E cada vez mais distantes
Nossos destinos vacilantes
Quiçá em outras alvoradas.


(André Bianc)

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Fanatismo?

Os anos de convivência
Demência e ostracismo,
Cinismo é a inconfidência
No íntimo do altruísmo.

A validação do fracasso
Que fiasco corações!
As emoções no bagaço
Não passaram de projeções.

Essa triste e dura falência
Não há sequer a turbulência
Nesse voo precipitado.

Deito no meu comodismo
Todo amor é fanatismo?
Melhor eu virar para o lado.


(André Bianc)

Juntos

Somos um hiato
O interstício vão,
A pausa, senão
De um novo ato.

Ter no intervalo
Pouco que resta,
O amor que calo
Ao fim da festa.

Depois me mato
Eu mesmo ingrato
É pura imaginação.

E nós dois juntos
Sentimentos defuntos
Em um só coração.


(André Bianc)

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

História para dormir

E tudo será o estandarte
Inconsciente do presente,
A dicotomia sem alarde
Do sentimento urgente.

O vão vacilo da escolha
A nata azeda do decidir,
Essa vontade de sumir
Pra algo que nos acolha.

Nesse diagnóstico-coração
O peso da agnóstica razão
Um sopro raquítico talvez.

E sem a menor pretensão
Penso que amo, porque não?
Leia para mim: era uma vez...


(André Bianc)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Incomparável


Acolha-me em seus braços
Além dos outros mundos,
Relativos tempos e espaços
Que abstraem os segundos.

Da sua voz altiva e em chama
O eco algoz das profundezas,
Reflete a sua silhueta profana
Em noites a fio de sutilezas.

E debaixo da etérea camisola
Tens a áurea sutil que consola
O meu torpe e primitivo intento.

E todas as gotas que provarei
Cristalizadas na alma as terei
Um incomparável sentimento.


(André Bianc)

Pleonasmo

E distorci a realidade
Eu sonhei por demais,
Meu amor é vaidade
Uma conquista a mais.

Estranha a natureza
Minha parte nefasta,
Amo com rara pureza
Mas a cama é que basta.

E quando a tona vem
O engano que detém
Dessa minha invenção.

Perco o entusiasmo
O amor é pleonasmo
De uma boa intenção?


(André Bianc)

Hidro Desejo Amor


A difusa imagem
O calor na vidraça
O vapor embaça
Seu corpo-viagem.

Gotejando desejo
Úmida por inteiro
Chove o chuveiro
Tudo que não vejo.

Essa Maldita toalha
Cobre o que valha
Meu intento de ser.

O creme que desliza,
O teu corpo sinaliza
O meu bem querer.


(André Bianc)

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Laborioso

Bem melhor do que falar
Palavra escrita é tatuagem,
Precisa de pouca coragem
Basta deixa-la transbordar.

E escrevo essas bobagens
Melhor que tenho de mim
Os personagens e viagens
A desconexão do sem fim.

Dessa retórica contumaz
E a boa contradição capaz
De muito mesmo ironizar.

Aquele bom antagonismo
Necessário e velado cinismo
Um orgasmo ao pensar.


(André Bianc)

Receita

E que por essa hora
Fique apenas assim...
Esse gosto de amora
O beijo do Querubim.

E sem a menor demora
Colha todos os jasmins,
Do nosso “nove vez fora”
Eu e você, até quem fim!

As manchas no avental
Desse amor em madrigal
E tudo que nele deleita.

Uma dose generosa
Da cama prazerosa
Nossa melhor receita.


(André Bianc)

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Fingimento

Eu sou raso mesmo
Medo de me afogar
Não desfilo a esmo
O que posso guardar.

Pérolas de sabedorias
Ah! O velho Buk falou...
Das necessidades vazias
Que alguém vomitou.

E fingindo ser poeta
Meu poema é a seta
Que tento não ferir.

A sua inveja velada
Ninguém aqui é nada
Mas podemos fingir.


(André Bianc)

Adagio XXXVIII

Adagio XXXVII

No fim das jornadas
Sangram as vidas
Irreais e sincopadas
Expostas feridas.

Os frutos no chão
Podres ao relento
Apenas o intento
O bagaço nas mãos.

Servirão de adubo
Restos que cubro
O que não sobrou.

Da etérea primavera
A flor que exaspera
O infinito que sou.


(André Bianc)

Propósito?

Pensar é a nudez
Atrás dos biombos,
Existir é um talvez
Viver aos tombos.

Ser é só estupidez
Estar é o bem real,
Declinar da altivez
Na buscar o ideal.

Nas vãs tratativas
Das vidas relativas
Apenas frustrações.

O ensaio patético
Do momento poético
Sem proposições.


(André Bianc)

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Pensar

Bebo o que não há
O copo meio vazio
Ou meio cheio está.
Enfim, é só desvio.

Num labirinto de ar
Eu só e tão sombrio,
Geométrico linear
A vida por um fio.

A hora excêntrica...
Uma dor egocêntrica
Como explicar?

Algo virulento
Quase não aguento
Sofrer é pensar.


(André Bianc)

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Adagio 21

Ferrugem secular
A garça pensativa
Os olhos desenhar
Âncoras inativas.

Maré fria vazante
Digitais na areia
A noite ululante
O canto da sereia.

A última lanterna
O coração externa
Luz na escuridão.

Por hora o cansaço
O fardo do fracasso
E o prazer da solidão.


(André Bianc)

Falta

Uma ideia casta
Jogada na gaveta
A palavra gasta
Ferida pela caneta.

Inútil inspiração
Escrevo pra quem?
Dolorida ação
Mas ela não vem.

Difusa imagem
Aquela viagem
Terra estrangeira.

Falta-me direção
O verso na mão
E a poesia inteira.


(André Bianc)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Acaso?


Sacrossanto sincronismo
Cuidado, nada é por acaso,
Caso sério, antagonismo
O seu tempo, o meu atraso.

E esse caso se acaso boiar
No fluido cósmico universal?
Um sentimento bilateral
Há outra forma de sonhar?

Sim, viemos na mesma era
Nessa rarefeita atmosfera,
Corpos binários ao vento.

Retrocederei o calendário.
Você um gracioso relicário,
Eu deslocado nesse evento.


(André Bianc)

Louco?


Um louco calado
Autocombustão
Não conectado
Incêndio da razão.

Um outro pensar
Numa unipessoa
Querer dominar
O que destoa?

Seria o sistema
Ou um teorema
Inexplicável ser?

Social destrutivo
O olhar furtivo
Que teima não ver?


(André Bianc)

segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Fantasiosamente...

Da alma, o historiador,
A catastrófica memória
Nosso tempo demolidor
Ficção a nossa retórica.

Foi ascensão espantosa
As Juras veementes
Entre rosas e serpentes
As delícias venenosas.

Minha sombra ainda figura
E transmutam tessituras,
No seu corpo-geografia.

E eu sempre desmedido
No teu gozo suprimido
Nossa paixão é fantasia.


(André Bianc) 

domingo, 24 de setembro de 2017

Não foi nada


As pedras floridas
No céu penduradas
Estrelas sofridas
As horas queimadas.

Uma dor reluzente
Nos olhos da amada
A viagem urgente
Daqui para o nada.

E a inexata certeza
Servida fria na mesa
Pratos de solidão.

Viver é não servir
Ao que nos resta sentir.
No mais tudo é vão.


(André Bianc)

sábado, 23 de setembro de 2017

Sentença

Profunda incisão
A alma exposta
Vísceras nas mãos
Daquele que gosta.

Querer é sofrer
Num eterno perdão
E sem nada saber
Do amor em questão.

Paixão é sarampo
Nem mais me espanto
Com essa doença.

E você tome tino
De asas ao destino
Ele tem a sentença.


(André Bianc)

Quer tentar a sorte?

Não sou tudo isso
Mas serei muito mais
As sombras do omisso
De amores virais.

Estou pelo caminho
Disfarçado de tempo
Dissimulado argumento
Eu viajo sozinho.

Se quiser vir comigo
Ofereço doce perigo
Da incerta paixão.

Sei que anda perdida
A bússola enlouquecida
Do seu coração.


(André Bianc)

Quem nunca?

Tento recompor agora
O meu amor retumbante
Caótico, febril , delirante,
E dito da boca pra fora.

Eu sei o que te desarvora:
É o meu querer demente.
Você fazendo-se de crente
As necessidades do agora.

Após o desejo consumado
Sentimento emaranhado
E mergulhado na solidão.

Restou o teu cigarro acesso
Minhas as roupas do avesso
E um vazio imenso no coração.


(André Bianc)

Voando


A palavra muda
Fotografia cega.
A poesia absurda
Que tudo carrega.

Sentimentos vãos
Desejo impossível,
Escorregou das mãos
O amor invisível.

Mas nada basta
O sonho que arrasta
Essa triste melodia.

Pudera eu querer
Cantar, voar e viver,
Qual uma cotovia.


(André Bianc)

Historinha Rivotril. Ops, ifantil

Eu também gosto tanto
Das histórias de dragões
Daquela que um tal santo
Assassinou os sete anões.

E da Rapunzel de avental
Comeu a maça envenenada
Furtou o sapatinho de cristal
Do Saci em disparada.

E em meio de tanta confusão
O príncipe sobe no pé do feijão
Deu de cara com o Ali Babá.

E Dom Quixote dos Cervantes
Tomou as pingas das estantes
E desmaiou no velho sofá.


(André Bianc)

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Valsinha Marítima

A noite chorosa
Vestido rendado
Você venturosa
O sonho sonhado.

Já sem protocolo
Tua face corada
A outra alvorada
Te pego no colo.

A hora prisioneira
E você por inteira
Nos ares a bailar.

Mas foi só fantasia
Quem sabe um dia
Eu volte do mar?


(André)

Vapores

Porta encostada
Um vento tardio
A voz aveludada
Manto sombrio.

A hora suicida
Na cama alada
Paixão distraída
A fé abalada.

E sangra talvez
Pela última vez
Nossos fluídos.

Corpos, tremores
Amor, vapores
Tempos idos.


(André Bianc)

êxtase

Distante e oposto
O teto iluminado
Um céu de agosto
Lençol acetinado.

Comtemplo em ti
Vulva, vulto e vento,
Desbaratado tempo
Olhos que não vi.

Nosso frêmito gozo
Eu todo poderoso
Tuas pernas aladas.

Foi um sonho louco
De tudo um pouco
Horas dissimuladas.


(André Bianc)

Cupido?

Dentro do coração
Mar de veleiro.
Feliz é ser inteiro
Destroçada paixão.

Navego pelo dia
O descobrimento.
Notívago, sou vigia,
Desdobramento.

Navegar é preciso
Versou tão conciso
Amargurado poeta.

Dos céus um anjo
As flores, arranjo,
A certeira seta.


(André Bianc)

Roleta

Recolham os dados
Esse jogo acabou.
Pois triste é o fado
De quem não jogou.

Apunhalaram a sorte
O sangue jorrou.
Amor em recorte
A tormenta levou.

As rugas do tempo
Nenhum unguento
Que conforte o coração.

Mas trago boas notícias
Das paixões fictícias
Jogue outro dado, então.


(André Bianc)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Maresia

E a tarde me leva
Ao raro solstício
Pequeno artifício
Luz brilha na treva.

Pudera eu cansado
Erguer a esperança
Da vela que alcança
O remo quebrado.

Ah, quem me dera!
Sonhar a nova era
Nos pés quebra mar

E fazer uma pulseira
De conchas e eiras
De um eterno sonhar.


(André Bianc)

Calmaria

Tuas dores na moenda
Suprassumo envenenado
Pisa em falso, um dilema,
Num sentido celerado.

Vai depressa, a contramão,
Chegue logo e bem de perto
Rodamoinho, um turbilhão,
Tudo ao fim será deserto.

Mas antes, e o que quiser,
Alma intensa de mulher
Nenhum traço apagará.

Então entre, já é tarde!
Madrugada, a hora arde,
Nossa cama te acalmará.


(André Bianc)

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Serenatas


Minhas mãos sossegadas
Em teu púbis repousam
E que todos nos ouçam
As vozes excomungadas.

Volúpia, o prazer revirado,
Nosso amor tão corrosivo
Infiel, cativo e desenganado,
Penso em viver, mas não vivo.

Essa loucura de carne e ciúme,
Subo em seu corpo até o cume
Pra lá de cima eu contemplar.

O seu gozo rugindo em cascatas
Você cantada em serenatas
E uma noite inteira a jorrar.


(André Bianc)

Vinganças


As palavras eu engoli
Sem ressentimentos,
Melhor é abstrair
De todos os intentos.

Viver é estar calado
E afogar essa ressaca
Num sonho malfadado
Na ponta de uma faca.

Com um sorriso amarelo
Rapunzel no meu castelo,
Cortarei as suas tranças.

E as enfiarei na sua boca,
Sufocada a garganta rouca
De todas as suas vinganças.


(André Bianc)

Causa


Do tempo extraditado
Só tenho o que penso,
Reviro o limbo, propenso,
Pesadelo desgraçado.

Meu corpo sobre os jornais
Sol amargurado, já é agosto!
Fotografias, rugas no rosto,
O futuro que não volta mais.

Envolvo-me nessa letargia
Na varanda espera a agonia,
Pontualmente e sem pausa.

E exausto, na alma eu silencio,
Outros sonhos que vivencio
Tudo que o amor me causa.


(André Bianc)

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

O dia da maldade


A cidade amanheceu estranha
Uma angústia nas almas caladas
A premeditação na entranha
Das facas escondidas e afiadas.

O cheiro do ódio está no sangue
E nos olhos rubros e irrigados
Viúvas colhem flores de mangue
Para os velórios dos desgraçados.

Mas muito antes da noite cair
Algum anjo-demônio há de vir
Com o intento de nos matar.

Mas acordo com a janela que bateu,
Cruel pesadelo e o dia amanhecer
E um lindo bem-te-vi a cantar.


(André Bianc)

Constatação

Não tenho mesmo pra onde ir
E ninguém me quer esmolar,
Mas para viver basta sentir
E construir um etéreo sonhar.

Se ainda tento algumas idas
No pensamento, já retornei,
Num voo curto de asas partidas
Por destinos que ora neguei.

E sem nenhum contentamento
Buscarei o vago esquecimento
Para a vida que nunca me quis.

E se um dia eu for primeiro
Recolha as flores do canteiro
E todos os versos que eu te fiz.


(André Bianc)

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

Mendiga

Sim. Toda paixão passa
Tudo é apenas ilusão,
Até a pior desgraça
De um amigo e irmão.

Tiro a minha carapaça
Falso, beijo a tua mão,
Sinto o que transpassa
No seu ingênuo coração.

Frio, vejo a lança certeira
Rasgar sua pele e caveira.
Agora nada mais importa.

Ao ver a paixão por inteira
Mendigando, eira nem beira,
E batendo na minha porta.


(André Bianc)

Encantamento

Que antro é o meu coração.
Quiçá um gélido necrotério
Defuntas paixões, pretérito,
Num arcabouço de ilusão.

Mas continua sagaz e batendo
Como sinos das torres caídas
Anunciando e nada retendo
Todas as lágrimas escorridas.

Passa a vida marcando
O amor alheio sangrando
Pelas veredas invernais.

E direi com a dura certeza
Que o melhor ficou na mesa
Os seus encantos carnais.


(André Bianc)

Quem?

Uma controvérsia
No pensamento...
A força da inércia
Do liso tempo.

Precipício imaginário
Nada que remonte,
O homem refratário
Num piscar, desmonte.

Olhando para o teto
Por dentro inquieto
Tudo que se esconde.

O exausto existir
Tentar e não desistir.
Quem me responde?


(André Bianc)

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Promessa

Na boca um gosto de sal
E a amnésia de um futuro,
Nessa paradisíaca e abissal
Alcova onde eu mensuro.

Um corpo, decúbito dorsal
Um sentimento prematuro
Nossas vidas, nexo casual,
Arde no fogo de munturo.

Mas nada há de perpetuar
Este símbolo, anel no anelar,
Então, ama-me sem pressa.

Pois tudo um dia passará
E ninguém mais lembrará
O dia que foi tudo promessa.


(André Bianc)

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Vitrais

Sou esse instante e mais nada
E aquilo que eu nunca entendi,
Não obstante a essa dura jornada
Sei que sei, mas nunca aprendi.

Abro a cúpula desse observatório
E vejo o que da vida fiz por inteiro,
Num universo vão e contraditório
Identifico-me como um forasteiro.

Mesmo assim muito conjecturo
Neste largo campo que mensuro
Nas ondas etéreas do pensamento.

E escorrem as lágrimas das chuvas,
Meus olhos, cristais-cachos de uvas,
Pelos vitrais finais desse momento.


(André Bianc)

domingo, 3 de setembro de 2017

Vigília.

Conte-me da sua estranheza
E daquilo que não te faz bem,
Deixe sempre a sua luz acesa
Iluminando o que há mais além.

Traga na necessária bagagem
Os seus desejos de mudanças,
Sabendo que tudo é passagem
Sem nenhum direito a heranças.

E mesmo que a noite não valha
Uma lágrima sequer na toalha
Deixe as suas flores na janela.

Pois ficarei aqui atento a rondar
Seu sono profundo, o dia raiar,
Postado qual um bom sentinela.


(André Bianc)

Inveja.

Sim. A sua escrita é boa,
E seus poemas belos.
Mas o verso se esboroa
Das torres dos castelos.

Ao longe sinto que falta
Uma desejável estrutura...
E um ritmo que ressalta
Ou uma pequena sutura.

Tu és um tanto liberta
Digo pouco que presta,
Desnecessário deletério.

E por eu ler tão distraído
Às vezes me sinto atraído
Por seu poético mistério.


(André Bianc)

Daqueles

Eu gosto dos poemas
Daqueles desgraçados
Dos versos lanhados
De açoites e dilemas.

Gosto das obscuridades
Dos sem esperanças,
Em letras de maldades
E muitas intemperanças.

O poema serve para cortar
Ferir, sangrar e dilacerar...
E jogar nos úmidos porões.

Ao fim, sem nenhum remorso,
Cortarão os corações trevosos
Numa hemorragia de ilusões.


(André Bianc)

A culpa é sua.

Estamos vivendo o momento
Nossos corpos estão a sorrir
Nesse repetitivo movimento
Mas sei que tudo há de ruir.

Não é um amor profundo
É só desejo, você se enganou.
Dei volta e meia pelo mundo
Para te dizer: Que pena, passou...

E continuamos aqui deitados
Com os sentimentos celerados
Sob um teto de esperança vã.

Não teremos a noite inteira
Só este amor podre na fruteira
Contaminando sua doce maçã.

(André Bianc

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Prisioneiro

Mesmo sendo prisioneiro
Sinto o intenso movimento,
Em flash de luz ou por inteiro
Na masmorra do pensamento.

Abro as portas para o deserto
Liberto os meus “eus” de mim.
O que há de certo, só o incerto,
E o discreto nômade do sem-fim.

Levado por etéreas caravanas
Eu viajo calado e em chamas
Nesse tácito labirinto interno.

E por sempre estar sem rumo
Sei que eu mesmo me consumo
Nos porões do meu inferno.


(André Bianc)

Falha

O coração pede clemência
Os olhos veem perplexidades
A alma conspira demências
E o corpo as suas vontades.

Neste cenário eu não alinho
O tudo que sou e quero ter
Pois entre a água e o vinho
Ambos o meu desejo é beber.

E afogado nessa dimensão
Dúbio, entre o sim e o não,
Busco um contentamento.

Mas por falta de um sentido
Penso que fui sem ter ido
É falha a percepção do tempo.


(André Bianc)

Perguntas

O raciocínio
É o domínio
Da razão?

O que seria
A histeria
Da paixão?

É de se pensar,
Ou basta amar,
Então?


(André Bianc)

Surtar?

Não sei o que é surtar...
Porque dou um jeito e viajo
E quando quero me matar
Olho para mim e reajo
Pois a morte
Nem com muita sorte
Iria me bastar.
Escreverei um novo poema,
Como se fosse um dilema,
Daqueles de lascar.


(André Bianc)

Treva

E sem eu saber
O que me leva,
De certo andarei
De treva em treva.

Antes, a cova tátil,
Um corpo volátil.
O peso do sentir:

A noção do tempo,
Do Esquecimento
O do não mais existir.


(André Bianc)

As ilhas

A crueldade com que te amo
É digna dos grandes canalhas
O prazer em cortes de navalhas
Rosas sangrentas em ramo.

Mas você louca e desatinada
Deixa-se levar por essa tormenta
Trasbordando a dor que alimenta
O meu gozo afogado que mata.

As intempéries do tempo refeito
Dormes depois sobre o meu peito
Sonhando com tantas maravilhas.

E eu já satisfeito e contentado
Tento sonhar e virar para o lado.
Oceano de fêmeas, eu sou as ilhas.


(André Bianc)

Fotografia

Vendo a sua fotografia
Sorri para o seu sorriso,
Ganhei o que eu preciso
Uma eterna fantasia.

O seu vestido estampado
Cores e formas de magia
Num instante de alegria
Exibido com gesto delicado.

Ao fundo o dia tumultuário,
Eu, um amante perdulário,
E com a fria e a exata noção:

Que o tempo é perverso,
Sei que cabes no meu verso
Mas nunca em seu coração.


(André Bianc)

As palavras

E as minhas inúteis palavras
São os meus parcos tesouros
Zumbis, zumbidos de besouros
Todas foram estranguladas.

No contexto da minha história
São pontiagudas e penetrantes
Inocentes, desconexas e delirantes,
Nos espelhos opacos da memória.

Ora! Que venham as facas afiadas,
Pelo chão, ensanguentadas,
E transformadas em vãos retalhos.

E por fim, todas esquecidas,
Na complexa nulidade, vencidas,
Como cartas fora do baralho.


(André Bianc)

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Sonho infanticida

Num moinho surreal, eu fantasiava
Eloquentes sonhos de mil intentos,
Entre fracassos, o eu-herói estava
Nas batalhas intensas do pensamento.

Perdi-me então, pelo adulto caminho
Onde só existem exércitos vencidos,
Sem rumo e vizinho, fiquei sozinho
E longe do meu personagem preferido.

Por fim, eu fui expulso daquela história
Das raras páginas imaginadas de criança,
Cresci, foi-se o sonho, a luta e a glória
Não fui sequer um Sancho Pança.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pequeno Mapa do Pensamento - Parte II

Inúteis percepções e experiências
Uma pedra que não percebe e sente,
Ou um animal irracional doente
Num sentido isolado da existência.

Cativo em espaços de conclusão
Associando fatos não precedidos,
Do pensar a linha frágil da reflexão
Ocasional significado subtraído.

Impassível diante desta amplitude
Da arquitetura dura do pensamento,
Justifico a todo possível momento
Os equívocos propositais das atitudes.

E exilado dos tormentos do mesmo
Mundo impessoal e muito conjecturado,
Reduz-se em partes e também a esmo
A filosofia fria dos dias vãos e inacabados.

domingo, 13 de novembro de 2011

Pequeno mapa do pensamento

É um mosaico de perspectivas
As sombras das angustias indivisíveis,
Seccionadas por vozes intuitivas
Em linguagens incompreensíveis.

Assim percebo a perda do contato
Dos dúbios valores convencionais,
Represo o conflito e logo trato
De recompor o pensamento fugaz.

No desapego reflexivo delibero
Os súbitos tons da existência,
Por osmoses ou catarses, reitero
A dissolução da vã consciência.

E toda esta evasiva contemplação
Falsa testemunha da palavra escrita,
Entre o criador e a criatura, a devoção
Subjaz a verdade nunca dita.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Jardim das Indecências

Vetores involuntários cerebrais
Panes, curtos-circuitos, sensações,
Como se fossem poeiras siderais
Cobrindo nossas dúbias razões.

Sem direção e sem controle do fim
Subjugamos nosso amor fracassado,
Na difusa dispersão do inútil sim
Dos anti-humanos sentidos celerados.

Temos a multiplicidade de variáveis
E a experiência da ditatorial estética,
Não havendo nas horas insuportáveis
A surreal consciência da cruel ética.

E no teu corpo, leve, latente e corrosivo
Desejos, lavas vulcânicas e demências,
Que florescem em meu olhar apreensivo
Rosas nos teus jardins de indecências.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Antes de um sonho

Ilustram a existência, interrogações
Depuração límpida, sóbria que aflora,
Predominante de vãs conspirações
Nos irreais universos do exato agora.

Modelo de teoria cega e ultrapassada
Além de verdade, todos nós, nos desatamos,
Do pensamento inútil, mente perturbada
Historiadores equivocados, imaginamos?

Cultivados em estufas do velado cinismo
O alimento das nossas mentiras necessárias,
Em conceituais aparências do iluminismo
Impostas por regras absurdas e arbitrárias.

E a partir ponto central, e nada mais
Dos neurastênicos discursos dos sentidos,
Apenas servem para nos jogar para trás
E despersonalizar os nossos ouvidos.

Ilustram a existência, o ego e a filosofia
Entre fatores congênitos e recalcitrantes,
Diante da dramática e constante agonia
E cientes que nada, nada será como antes.

terça-feira, 11 de outubro de 2011

Depois de um sonho

Primitivamente a minha intenção
Modelar a estética do inconformismo,
Mas na hora absurda, a absolvição
Da opressiva imagística reiteração.

Causou-me obliqua estranheza
Este amor de construção formal,
Inspirado na litografia da incerteza
Em difusas imagens do moral.

E no impecável abismo, mais um passo
Ato final simultâneo da consciência,
Nesta metafísica ocultista, nada faço
Senão embebedar-me da vã existência.

Após o jantar, restaram os seus ossos
Pelos campos vazios de muitas camas,
Já habitei em muitos desses destroços
Inúteis reinados, arruinados e em chamas.

Primitivamente a minha intenção
Roubar-lhe o admirável magnetismo
Que se esvai teu corpo nu, clarão!
E colide com meu egocentrismo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Redenção

(À amiga Paola Martins)

Após séculos de penúria e dor
Enfim, pelos céus fomos perdoados,
E em novos corpos carnais confiados
Para traduzirmos tudo em sublime amor.

Refeitos pela divina luz, eis a caminhada
Em busca de um oásis raro e tranqüilo,
Sem lembrarmos que fomos apenas aquilo
Pelas trevosas noites ocas e assombradas.

E chegando exaustos ao celestial destino
Onde nossos amigos, reencontraremos,
Teremos a clara certeza que vencemos
Quando os anjos azuis tocarem o sino.

Por fim, voltaremos sãos de onde viemos
Reencarnados para mais uma dura missão
Não sei se juntos, amantes ou irmãos
Mas sim poetas de certo, renasceremos.

O Oboé

O Oboé chora sua melancolia
E um moribundo aos pés do outeiro,
Observado por um corvo traiçoeiro
Repousando sobre o símbolo da heresia.

As portas escuras fechadas, o sino calado
Lá dentro a velha dona já adormece,
Antes reza, promete e depois esquece
Do legado deixado pelo crucificado.

Somente as velas, testemunhas insistentes
Damas brancas, chamas contra o vento,
Poucas iluminam o triste convento
Mas sem alcançarem as almas penitentes.

E a noite,a hora muda, a madrugada
Quando a cidade calada dorme ainda,
Jaz meu corpo inútil, a vida que finda
Entre sonhos, poesias e mais nada.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Cenóbio das Trevas (Parte II)

(A amiga Paola Martins)

Ofereça minha alma impura, também
Aos senhores desta lodosa escuridão,
Pois em vida, nunca fui cúmplice do bem
Só esses tempos negros nos resgatarão.

E embarcaremos na carruagem infernal
Rumo ao sofrimento e sem itinerário,
Pois nesta hora inexorável e fatal
Teremos apenas o nosso destino arbitrário.

E caminharemos amiga, juntos tateando
Mendigando por pântanos trevosos,
Um pouco da longínqua luz, suplicando
Um fardo mais leve dos nossos remorsos.

E diante deste tétrico teatro, no último ato
Brotarão nossos cadáveres naquele jardim,
Onde reinam absolutos abutres e ratos
Até que nossos pecados sejam perdoados, enfim.

terça-feira, 27 de setembro de 2011

Uma outra canção

Trêmula e enlouquecida
A tua noite não sucedeu
A paixão feroz e corrosiva
Deste teu desejo ateu.

Abrirão nuas as portas
Da insólita e incerta aurora,
Paisagem, cinzas mortas
A solidão nos espera lá fora.

E a cada passo vacilante
Talvez ainda te encontre com vida,
Mesmo sem saber se é relevante
Viver está existência falida.

Então como identificarei você?
Maquiada de tanta ambigüidade,
Se não consigo sequer reconhecer
A minha própria identidade.

Restará enfim, a finada magia
De te amar mesmo sem motivo
E conviver com tamanha agonia
Ao saber que agora apenas vivo.

Trêmula e enlouquecida
A tua noite não amanheceu,
Abraçarei tua sombra viva
E o sonho que já morreu.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Resignação

Porque andas apreensiva?
Se tão breve é a nossa vida.
Vem os ventos do poente
E sopro imperceptível,
A deslocar de nível
O que nos era incoerente.

Giram-se os mundos calados
Ouvindo os poetas ardentes,
O escárnio dos descrentes
E o pranto dos enlutados.

O ritmo da vida permanece.
Mas nós não somos os mesmo,
O tempo as malhas da mudança tece
Nossas memórias são jardins tão ermos.

Porque andas apreensiva
Se o amanhã não mostra o seu rosto?
Não sabes a caso a devida,
Vão-se os barcos do sonho ao sol posto?

E que a lua retome e abraça
Mesmo o que tomba ao que passa,
Haverá de ser sempre querida
Mesmo por mim com essa asa partida
Que a vontade de Deus desenlaça.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Amanheceu.

(Para aquela que nunca será minha.)

E você, não amanheceu.
Saltou louca para o infinito,
Calando o meu surdo grito
Depois, nada aconteceu.

E você não renascerá
Sem alma e sem guardiões?
Só tua mão cega ostentará
Minha cabeça as multidões.

Mutirões de famintos intentos
Ilusões seculares e incertezas,
Que a ferrugem desses tempos
Deterá a hora suja em sutilezas.

Genitora de mágoas, rugas no rosto
Trôpegos desejos condensados,
A busca do sol sempre posto
Em horizontes inalcançados.

E a vã alvorada? Condenada e presa
Em tua cama, o sexo vil, mil razões
Ansiedades, a real aspereza
Dos desgraçados corações.

Mas nesta ausência de luz
Em teu olhar de bicho e gente
Omitirá a ira que traduz
Nossas relações inconseqüentes.

E tuas vestes, não mais
Vestirá teu corpo nu, vela no breu
Clareando meus infindos umbrais
Finalmente, infelizmente amanheceu.

sábado, 20 de agosto de 2011

Adagio Lamentoso

O que me falta de esperança
Sobra-me por ti, grande amor
Equaciona querida
E há de mensurar a minha dor.

Julga-te acaso esquecida?
Tal não pode se dar,
Pois mais vale um vento já ido
Criar outra onda no mar.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Definição

Definir tudo que existe
Transcendendo o individual
Buscando a resposta que omite
O "ter" fútil e o "ser" essencial.

Tentaremos um novo exercício
De refletir, contemplar e amar?
Trabalhando neste duro ofício
Toda a existência a resgatar.

Definir é limitar.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Geminiana

Sou mesma assim, antagônica
O meu signo rege a dualidade,
Em pleno sonho sou a realidade
Uma personagem tragicômica.

Quero o novo apenas um dia
Intensamente te esqueço e te amo,
Antevejo o meu próprio desengano
E as pessoas dizem: Quem diria !

E com tantas possibilidades
Em uma só visto mil personalidades,
Sei que o tempo tudo engana.

De mim ficará a complexa história
Pois eu sou o arco, a flecha e a trajetória,
Sou mesma assim, geminiana.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Relatividade

Relatividades que compõem o espaço
Discrepâncias múltiplas do existir e ser,
Tendo cada corpo o seu próprio compasso
E o descompasso do outro para entender.

Se para uns é apenas mais um pouco
E para outros tudo é demais, até infinito...
Em parâmetros entre o normal e o louco
Negando todo o questionamento aflito.

E se toda a ótica da existência fosse relativa
Tudo seria composto de absolutamente nada,
Sequer haveria a alma humana intuitiva
E a descida poderia ser vista como escalada.

Ciências, religiões malditas e a vã filosofia
Tudo nestes confusos e discutíveis contextos,
Se para uns são muletas ou meio de vida
Para outros são meros irreais pretextos.

Relatividades que compõem o espaço
Discrepâncias múltiplas do existir e ser,
Muito além do extremo humano cansaço
Na existência que pensamos viver.

Contra a Corrente

Romper com os paradígmas autoritários
Criando um novo pensamento existencialista,
Para que os modelos medíocres e imaginários
Fiquem restritos apenas aos psicanalistas.

Entender que a loucura é a mais pura razão
E vítima desta roda-viva que tem nos esmagado,
Exigindo-nos a todo instante da cruel competição
Resultados convincentes e por ela manipulados.

Ter a consciência da nossa efêmera passagem
Por esta vida que somos meros coadjuvantes
E quem sabe tentar inserir nesta paisagem ?
Nossa figura na breve posteridade entediante.

Romper com os paradígmas autoritários
Criando um novo pensamento existencialista,
Conquistanto cada canto do tempo perdulário
Mesmo que toda retrógada corrente resista.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Miséria

Voaram meus pensamentos ousados
Com as asas da noite vã e estérea
Pelos vales psíquicos famigerados
Desprendidos da humana matéria.

Inda que mesmo ora involuntários
Sucumbem numa compulsiva febre
Em cada canto dos fatais imaginários
E com todo o coletivo que se quebre.

E terão eles a anunciada liberdade ?
Como o animal do primitivo instinto
Entre as lutas da ilusão e da verdade
E nas ações que represento e sinto.

Voaram meus pensamentos cansados
Secou todo o sangue na frágil artéria
Vamos morrer de certo enganados
E sepultados em nossa própria miséria.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Lápide. ( Rua L, quada 20 , Campa 18)

Guardião dos sentidos opostos
Todos os elos serão quebrados,
Dos dias iguais sobrepostos
Primórdios medievais passados.

Habitante da mal fadada era
Nunca poderá sequer conter
A volúpia de alguém que espera
Os sonhos que inda possa viver.

Libertar as almas dementes
Presas em paredes horizontais
Viagiadas por negras serpentes
Viajantes de periféricos umbrais.

Guardião dos sentidos opostos
Todos os elos serão quebrados
Declamarei abraçado aos mortos
Meus poemas jamais declamados.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Inalcançável Amanhecer

Desigualdades incompatíveis
Obviedades longas por viver
Em todas as partes invisíveis
Um novo corpo apodrecer.

Com tantas palavras não ditas
E amores jamais finalizados
Apesar das promessas malditas
Dos velhos Deuses decapitados.

Ignoremos então a nossa morte
Certeza única e alentadora
Muito mais que azar ou sorte
A vida numa trilha desoladora.

Por fim restarão todos os pecados
Daqueles sem o menor perdão
Cometeremos os mais variados
Sem tempo para uma só reflexão.

Desigualdades incompatíveis
Obviedades longas por viver
Muito além da racionalidade
E do inalcançável amanhecer.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Desencontro

Translúcido sentimento
Nem assim poderei compor
O imaginado acontecimento
Quando em penso neste horror.

Paro e não me entendo
Porque ainda permaneço aqui ?
Pois sequer os braços estendo
Deixando a vida ruir.

Anônimo na estação do Tempo
Nem por mim poderei esperar
Sem tristeza ou contentamento
De partir ou de chegar.

E ao longe vem o inútil amanhã
Repleto de tantos conflitos
Eu abraçado com a esperança vã
Quem ouvirá meus gritos ?

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Adagio n° 19

( Ao Arka Hare )
Descansar as palavras na boca
Regurgitando os sonhos futuros,
Em quadros , miragem tão louca
Expostos em penhascos obscuros.

Evocar a luz em plena escuridão
Pisando nos degraus da insanidade,
Chamar os inimigos em mutirão
A declamar poesias pela cidade.

Ao final , habitar em ti , cemitério ...
Para decompor o sombrio passado
E sepultar vivo esse frágil mistério
Em covas de perdão e pecado.

Descansar as palavras na boca
Regurgitanto os sonhos futuros,
Concluir que a vida é tão pouca
Pichando os sonhos nos muros.

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Cigana

( à amiga Luciana Pedreira)

Na palma da mão
Um sinal.

O que ficou daquela esperança ?
E das certezas inimigas de criança,
As ingênuas intrigas
Algo sobrenatural.

Ficou suspensa na poeira ?
Num pensamento qualquer exato
Retratado em óleo abstrato
Ou como queira.
Agora é surreal.

E as vagas previsões ?
Os conturbados sentidos ,
Anéis , vestidos rodados e cordões
Em quais corações perdidos ?
Alheios ao bem e o mal.

Talvez no etéreo movimento
Na respiração mais profunda
Onde todo sangue inunda
Como um corte visceral.

E nada entenderei
Um dia ...
Do prazer ao sofrimento.
Na palma da mão
Um sinal.

sábado, 9 de agosto de 2008

Nu...Ânsia.

Uma mulher................................................( o quarto )
Real o sonho
Dia qualquer
Não suponho.

A nossa idade..............................................( a escada )
Cronológico engano.
Abandono , identidade
Calada-cilada , perda e dano.

Nu...Ânsia - declina......................................( a queda )
O nu imaginado.
Eu-esquina
Ignorado.

Noite fora...................................................( o fim )
Não há
Hora
H.

quarta-feira, 30 de julho de 2008

Canção do Amanhã

Exilado no tempo e na distancia
Sobrevivendo em lapsos improvisos
Sem uma linha reta ou constância
E perdido pelos caminhos indecisos.

Enfrentar a morte certa , corajoso
Entender o efêmero de tudo sempre
Deleitar-me do momento em profuso gozo
Impedindo que a mediocridade adentre.

Restabelecer então os descuidados dias
E a essência perdida da lasciva alvorada
Sem que as horas raras fiquem vazias
E nem a humana loucura questionada.

E por fim , desfilar com a fina mortalha
Pelos prometidos espaços umbrais
Abraçado com a derrota desta insana batalha
Até que tudo silencie e fique em paz.

sábado, 24 de maio de 2008

Senhora

Quero Senhora os vagos sonhos
Mergulhados em rubros licores
Surgirei assim dos umbrais medonhos
Nada nas mãos , apenas tremores.

Tremores qual pêndulo do indeciso tempo
Dias estes , pálidos , apenas escombros
Bateu-me no peito o fracassado intento
De chorar em seus delicados ombros.

E nas profundezas desses mares
Naufrago minha pífia fantasia
Navegando por desertos de densos ares
Sou o servo desta escrava apatia.

Quero Senhora os sonhos vagos
Em taças quebradas os sorverei
Encharcados da sua magia e da ira dos magos
Alucinado , desemparado morrerei.

Barco de Pedra

Deixo aqui o meu Barco de Pedra
Oceano ancorado na solidão
Onda trágica em mim quebra
Bússola sem norte pelo chão.

O farol naufragado sinaliza
Fachos de espera e aflição
A vela gasta apenas simboliza
O cais desprendido do coração.

E em terra firme estará o meu filho ?
Quem sabe ele falará com Deus
Lanternas jazem sem brilho
Último aceno , mares de adeus.

Deixo aqui o meu Barco de Pedra
Oceano ancorado na solidão
E segue a vida , tudo se quebra
Cartas confusas de navegação.

Canção do fim

Paro. Aqui é o fim do mundo
Pedras, palavras e tristes versos
Atiro-me no mais escuro profundo
Dragões ferozes , algozes universos.

Persigo meus dias exaustos e finados
Anjos tolos , diabos e mortais distraídos
Na memória ilusória , carmas confinados
Calendários antigos , números caídos.

Sigo por trevas e lírios, eis o caminho
Em trense , suor , sangue e torpor
Ao longe o monge , cajado e o velhinho
Ovelhas perdidas , perdido amor.

Definho. Antes corpo forte e valente
Que a ferrugem do tempo mata agora
Áura , alma ,vibração inconciente
Meus Deus ! chegou a minha hora.

Paro. Aqui é o fim do mundo.

Dona Cecília

(à Cecília Meireles)

Maravilhoso o Mar Absoluto
Sem palavras , Flor de Poemas
Isto ou Aquilo , apenas escuto
Tuas liguagens fortes e serenas.

Declamarei o Poema Natural
E o Romanceiro da Inconfidência
Cada livro seu é cortante e visceral
Expondo sua hábil eloquência.

Senhora Dona , com sua licença
Desculpe-me pelo atrevimento
Ler sua obra , seria entender a crença
Do humano e mortal movimento ?

E guardarei seus eternos versos
Como alguém numa santa vigília
Poemas seus aqui tão imersos
E decisivos para mim Dona Cecília.

Estrelas


Refletem sobre mim
Luzes tristes de estrelas
Melancolia , janelas sem fim
Como poderei descrevê-las ?

Será no mais tênue limite
Onde habita a dor que vede ?
Ou no desalento que omite
Estas fontes azuladas de sede ?

Amanhã , apenas o pensamento
Calado em grota profunda
Em seus labirintos de sentimento
Que em ti tudo inunda.

Depois de cerrados , além vida
Água marinha em fotografia
Que levará eternamente de vencida
O tempo que a tudo desafia.

Refletem sobre mim
Luzes tristes de estrelas
Deixo-te aqui enfim
Para as tristezas não vê-las.

Voar...Voar.

O vôo cego destes sonhos
Enfermo lapso , insanidade ?
Bateu-me no peito a saudade
Daqueles amores enfadonhos.

Então, restou-me revolver
O passado , lonjuras abismais
Aquém das portas celestiais
Um pecado mortal à cometer.

O fato é , que o real existe
Sem a menor santa piedade
E assim o dia finda-se triste
No espelho : incredulidade.

O vôo cego destes sonhos
O poeta , um astro vagabundo
Pai de poemas tão bisonhos
E marginal do concreto mundo.

Portugal , Portugal...

Este será o novo descobrimento
Ousarei despi-la de toda poeira
Do desejo de um chamamento
Tua vida na cidade estrangeira.

Faremos sim , a viagem inversa
Talvez do ponto final , destino ?
Revolvendo uma paixão tão imersa
Ao dobrar a sina de um certo sino.

E as saudades , ruas Lisboetas
Ficarão encharcadas nos panos
Jardins , pai , mãe e violetas
Irmãos , meus passos ...vamos.

Imposição


Caçadora da manhãs
Aos céus levanta a matutina
Envolta em sonhos e lãs
Despertai para tua arbitrária sina.

Nestas sutilezas de adeus ...
Onde calado ficou o meu olhar
Refletindo dilemas seus
Em espelhos da noite à contestar.

Sobreviver à vida , incerto destino
Com ares de pura clemência
Viver pergunto: Seria um desatino
Ou um instinto inútil da existência ?

E o que mais poderei te dizer
Se não tenho o que mais preciso
Vislumbrar sem jamais poder viver
Seus ditos infernos e paraísos.

Caçadora das manhãs
Aos céus levanta a matutina
Versos , inversos , palavras vãs
É o que te imponho menina.

domingo, 23 de março de 2008

Pretensão

Tua poesia parece
Pesar sobre mim
Ausente e presente
Princípio do fim.

Ausente e presente
Amanhece enfim
Que pena ela esquece
De versar sobre mim.